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17.4.09

UMA LEITURA DE STUART HALL


“O estudo da cultura popular é como o estudo da história do trabalho e de suas instituições”.

A problematização que Stuart Hall, teórico cultural jamaicano radicado no Reino Unido apresenta no artigo “Notas sobre a desconstrução do ‘popular’”, trata dos desafios de periodização da cultura popular e da definição de um conceito único para o termo “popular”.

Suas reflexões são fundamentais para se evitar redundâncias e equívocos no estudo da cultura popular, apresentando um ponto de vista esclarecedor, no que se refere a dinâmica de transformação da cultura e seu impacto quando para o uso e difusão de ideologias.

Contextualização

No desenvolvimento do capitalismo, a conquista das classes trabalhadoras e sua “reeducação no sentido mais amplo” tornou-se premissa para instituição “de uma nova ordem social em torno do capital”.

O objetivo desta “reforma do povo” era substituir hábitos e tradições populares para implantar a lógica do consumo, gerando uma transformação cultural, termo que o autor considera “um eufemismo para o processo pelo qual algumas formas e práticas culturais são expulsas do centro da vida popular e ativamente marginalizadas”.

Hall chama atenção para a necessidade de se entender o duplo movimento da cultura popular, o processo dialético de contenção e resistência. A cultura popular é o “terreno sobre o qual as transformações são operadas”, não se consistindo nem em uma tradição intacta, nem mesmo em um terceiro elemento totalmente novo.

A partir do século XVIII as relações sociais se intensificaram com as classes trabalhadoras em formação, geralmente “distantes das disposições da lei, do poder e da autoridade” e ao mesmo tempo integradas ao “campo mais amplo das forças sociais e das relações culturais”. O autor cita o vínculo da cultura popular com a sociedade ”através de inúmeras tradições e práticas. Por linhas de ‘aliança’ e por linhas de clivagem”, e também a resistência de um século de algumas regiões, fazendo-se necessário um processo contínuo e permanente de reeducação e reforma.



Periodização

O período entre 1880 e 1920 é o recorte temporal dado pelo autor que, referenciando Gareth Stedman Jones, observa que “em algum momento desse período se encontra a matriz dos fatores e problemas a partir dos quais a nossa história e nossos dilemas peculiares surgiram”.

Nesta época foram empreendidas mudanças a partir de questionamentos que se assemelham com o período atual. Hall contemporiza e considera não ser “por acaso que tantas das formas características daquilo que hoje consideramos como cultura popular ‘tradicional’ emergiram sob sua forma especificamente moderna”.

O período de desenvolvimento do capitalismo agrário para o industrial marca uma intervenção direta na cultura popular, que ainda não havia sido incorporada à lógica do capital que começava a se definir. Todo um processo de reeducação social desta cultura de “fora das muralhas, distante da sociedade política e do triângulo do poder” foi empreendido no século XIX.

Hall, por meio de questionamentos sobre o “imperialismo popular” parece elucidar algumas estratégias de massificação do consumo por meio da cultura popular. O autor cita a instituição da imprensa liberal da classe média da metade do século XIX às “custas da efetiva destruição e marginalização da imprensa local radical da classe trabalhadora”. A apropriação do popular pelo e para o consumo gera uma interferência no processo conceitual, informacional e lógico de uma classe para determinar uma direção uniforme para a massa.

A ruptura vinda com o período pós-guerra gera “mudança nas relações culturais entre as classes e um novo relacionamento entre o povo e a concentração e expansão dos novos aparatos culturais”. O autor enfatiza a necessidade de se estudar a cultura popular considerando a sua incorporação à dominação do imperialismo e da indústria cultural, no século vinte, num processo desencadeado nos séculos anteriores.

O “popular”

No mercado comercial e no senso comum resume-se ao que é consumido pela massa, definição “associada à manipulação e ao aviltamento da cultura do povo”. Este conceito para o termo popular Hall questiona por considerar que o povo, mesmo nutrido “por um tipo atualizado de ópio”, não é essencialmente passivo.

Outra restrição destacada ao termo popular é a distinção usualmente criada entre cultura comercial popular x cultura popular autêntica, sendo que o autor considera como problema básico desta percepção dual, o fato de que “ela ignora as relações absolutamente essenciais do poder cultural – de dominação e subordinação – que é um aspecto intrínseco das relações culturais”.

O autor chama a atenção para o fato de que a cultura popular está inserida no contexto das indústrias culturais, onde “há uma luta contínua e necessariamente irregular e desigual, por parte da cultura dominante, no sentido de desorganizar e reorganizar constantemente a cultura popular”. A cultura popular não transita apenas entre os extremos de isolamento e preservação ou total passividade e fácil manipulação, mas existe uma “concentração do poder cultural” que favorece o reconhecimento e a adesão por parte da maioria aos hábitos culturais estabelecidos.

A adesão da cultura popular a essa lógica imposta desde o século XVIII não é meramente pela via da manipulação, pois como apresenta Hall “junto com o falso apelo, a redução de perspectiva, a trivialização e o curto-circuito, há também elementos de reconhecimento e identificação”. É este processo complexo e dialético de resistência e aceitação que faz com que exista no campo da cultura “uma espécie de campo de batalha permanente”.

Outra conceituação do termo popular questionada por Stuart Hall é a que se refere a tudo o que o povo “faz ou fez”, que por ser abrangente e descritiva demais não permite uma diferenciação clara entre o que é e não é cultura. Este segundo ponto de dificuldade trata da categorização entre a cultura da periferia e a cultura dominante (povo x elite), uma fragmentação equivocada de um processo integrado, que é legitimada e instituída em diversos espaços sociais, como no sistema educacional, familiar, informacional etc.

A proposta do autor é de uma terceira definição para o termo, a que “considera, em qualquer época, as formas e atividades cujas raízes se situam nas condições sociais e materiais de classes específicas; que estiveram incorporadas nas tradições e práticas populares”.

O processo dialético da cultura popular, em relação contínua com a cultura dominante é destacado pelo autor, como ponto a ser considerado nos estudos e compreendido nos processos históricos não como “culturas inteiramente isoladas ou paradigmaticamente fixadas”, mas como um processo dinâmico de reorganização e recriação permanente.

Em contraponto à crítica de visão de cultura popular e tradição como algo que precisa ser preservado e mantido estático, Hall instiga a percepção de que “a cultura popular é um dos locais onde a luta a favor ou contra a cultura dos poderosos é engajada”. E isso diz muito sobre possibilidades de transformação no contexto mundial atual.

Da diáspora: Identidades e mediações culturais / Stuart HallOrganização Liv Sovik, Tradução Adelaine La Guardiã ResendeBelo Horizonte: Editora UFMG; Brasília : Representação da UNESCO no Brasil, 2003

Voltando aos poucos. E entrando de acordo no processo de pesquisa > Resenha para a disciplina de Teorias da Cultura - curso pós-graduação em Gestão Cultural pelo Celacc/ECA/USP

21.12.07

do meu pensar


A SINGULARIDADE DA ARTE EM UMA INTERVENÇÃO SOCIAL

As possibilidades e desafios para se conquistar mudanças sociais efetivas através da arte

Atual e principalmente em projetos de cunho artístico-social realizado com grupos de esferas sociais baixas ou em situação de risco, muitas ações que visam melhorias sociais são fundamentadas pelo binômio arte e cidadania. Pela crescente demanda por projetos desse tipo e pela parcela de recursos destinados a esse fim é preciso investigar se a arte pode realmente gerar essas transformações e como esse processo se concretiza.

Em um contexto de mercantilização da cultura, há de se considerar que uma noção de arte pode também ser utilizada para reforçar discursos e valores dominantes. Ou mesmo justificar altos investimentos de empresas em ações de marketing e responsabilidade social que mantêm o problema no mesmo patamar e transmitem à sociedade uma certa sensação de transformação.

Isso quando o que se chama de arte se concretiza em uma prática artística simplória e superficial que serve mais como ocupação de tempo para jovens do que representa uma real imersão no universo da expressão artística. Fato recorrente, por exemplo, no trabalho com a percussão, de grande riqueza e valor cultural, presente na maioria de projetos que envolvem negros moradores de favela. Nem sempre valores históricos e culturais associados ao tambor e sua relação com a ancestralidade africana, dentre outros aspectos relevantes e múltiplos são considerados nesse tipo de ação, que fica restrita à interpretação e reprodução de alguns ritmos.

Essa é uma percepção da arte apenas como prática livre, sem que seja considerada sua profundidade informativa, sua relação com outras áreas de conhecimento e sua capacidade de expressão. Questão essa que está em sintonia com a proposta teórica inicialmente desenvolvida no artigo “Singular”, apresentado no Congresso de Formação Artística e Cultural para América Latina e Caribe realizado de 8 a 10 de agosto de 2007 em Medellín, Antioquia, Colômbia.

Singular pode ser entendido como o momento em que a arte inicia um diálogo com a identidade de quem a cria ou a contempla. Em ambos os casos são momentos em que surgem as significações e interpretações, externalizadas em uma obra ou internalizadas na compreensão da mesma.

Singular porque é pessoal, exclusivo e intransferível, tanto a percepção como as transformações resultantes desse contato. Uma provocação da arte que convoca identidades, revela indicativos próprios de uma personalidade autêntica e promove a percepção do indivíduo enquanto parte importante e atuante no coletivo.

Considere essa singularidade própria da arte como possibilidade de gerar transformações. É desse contexto que surge, portanto, uma perspectiva para se trabalhar outras questões extra-artísticas, como é o caso de se pensar em arte para promover a cidadania.

Neste espaço de discussão e troca de experiências promovida pelo Congresso, foi muito questionada a estereotipada idéia do professor de arte, que se entende como “polivalente e que deve ministrar aulas de músicas, artes plásticas, teatro e ainda desenho geométrico”, como provocou a doutora em arte-educação Ana Mae Barbosa, ou ainda o hábito de se considerar a arte inferior a outras áreas científicas. Algumas práticas escolares e muitos dos projetos artístico-sociais da atualidade são realizados com esse fundamento e não exploram o potencial da arte de gerar transformações estruturais.

É preciso considerar os níveis de transformação que se pode alcançar com práticas que a princípio tratam do mesmo objetivo: arte para promover a cidadania. Uma prática que (re)conheça esse “processo de singularização”, conquista um campo mais viável de se explorar o conhecimento interdisciplinar, o potencial criativo da pessoa envolvida, podendo sim, ampliar a compreensão e formar personalidades autênticas, críticas e criativas com potencial para superar as dificuldades sociais da atualidade.

Por outro lado, práticas fundamentadas em uma compreensão mais superficial de arte também contribuem para esse processo, mas em escala menos abrangente, seja ocupando o tempo de jovens, por exemplo, para que não se envolvam com crime ou mesmo possibilitando um contato com a criatividade.

Essa não é exatamente uma opção de prática negativa, mas (re)conhecendo o potencial da arte para alcançar transformações mais estruturais, que promovam “mudanças de mentalidade”, como sugere o multipensador francês Félix Guattari, no livro “As três ecologias” há de se questionar como esse tempo oficial e esse objetivo associado à arte nas escolas e em projetos sociais vem se desenvolvendo, devendo ser, portanto, mais fundamentado para se efetivar.

Outros inter

Interdisciplinaridade é como a arte vem sendo pensada na área da arte-educação, como apresentou Ana Mae Barbosa na Conferência Magistral: “Arte na educação: interdisciplinaridade e outros inter”. A arte entre as áreas do conhecimento e também legitimada como uma área independente e específica deve ser reconhecida pela sua relevância. Estratégica porque dialoga e facilita o entendimento de coisas complexas e desconhecidas através do que é simples e conhecido, promovendo o que o formalista russo V. Chklovski no artigo “O procedimento da arte” considera como “uma percepção particular do objeto”. Fator que promove uma compreensão mais livre e pessoal de uma informação e oferece liberdade para que o conhecimento seja acessado com o potencial que cada pessoa possui: individual e autêntico.

Uma idéia conceitual sobre o que, no universo da arte-educação e dos projetos fundamentados em arte e cidadania, legitima essa possibilidade da arte de gerar transformações através do fortalecimento de identidades e compreensão da diversidade do coletivo e do conhecimento. Impõe-se agora o desafio de organizar essas reflexões em práticas que convivam com a estrutura econômico, jurídica, técnico-científica e de subjetivação que prevalece na sociedade contemporânea, sem que essa convivência resulte num processo de perda de autenticidade e de incorporação da expressão artística à lógica dominante, tal como vem acontecendo na indústria cultural. Transformações que, inspiradas nas possibilidades da arte, devem criar caminhos inversos, criativos, críticos, singulares.

fotos pedro david e helbeth trotta

17.7.07

RECRIANDO A INDÚSTRIA

Um dia veio a indústria cultural, famigerado conceito que surgiu em meio às teorias filosóficas dos alemães Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, da Escola de Frankfurt, apontando o que seria mais uma forma espúria de se reforçar os valores do capitalismo.

“O rebaixamento do nível da criação humana e a transformação das manifestações mais nobres do espírito em banalidades comercializáveis” eram as indesejáveis conseqüências desse processo. Nesses tempos em que a arte é produto descartável e os artistas reprodutores de fórmulas cristalizadas pode-se perceber a prática legitimando essa teoria.

Mas tudo é indústria e ela mesma, e seus substantivos complementares, a começar pelo capitalismo, sugerem um processo tão estratégico que nunca se encerra: ela se recria, se adapta e ainda assim predomina.

Acrescente-se à essa lógica mutável e dinâmica, a criatividade da arte. Pois bem, esse “detalhe” tem viabilizado ações coletivas rumo a uma recriação de processos e a sustentabilidade da cena da música independente.

Sustentabilidade que vem da consciência das diferentes etapas que precisam ser executadas. Da compreensão da lógica da indústria cultural que se compara à Cadeia Produtiva da Cultura, com as suas etapas organicamente relacionadas de forma que a ordem dos fatores pode até se alternar, mas os resultados sempre levam ao consumo, que estimulam novas criações, e por aí vai.

Hoje, a indústria cultural tem ganhado novas definições e releituras, algumas delas apresentadas por Enrique Saraiva, coordenador do Núcleo de Estudos em Gestão Cultural da FGV/Rio, na comunicação “Notas sobre as Indústrias Culturas”, publicada na Revista Observatório Itaú Cultural.

Nas referências citadas no texto com as derivações sobre o que é indústria cultural ele cita que em todos “aparecem, implícita ou explicitamente, três elementos permanentes: o ato de criação, o suporte tecnológico para sua difusão e o seu lançamento no mercado”. E é justamente a “integração dinâmica desses três elementos que constitui a essência da indústria cultural”.

Esses três elementos são sinônimos das etapas organizadas da cadeia produtiva: produção, circulação e difusão. Etapas que contemplam o trabalho dos artistas e também dos jornalistas, dos produtores, dos patrocinadores, do poder público, dos empresários, do público-alvo, da população de massa, na teoria relacionados, na prática do mercado independente por hora um pouco desarticulados.

Todos essencialmente participantes e geradores da cadeia produtiva, iniciada por artistas que antes nem tinham compreensão de todas essas etapas e agora não só a compreendem como alguns também a executam do início ao fim. "Se o poeta não escrever seu poema, a indústria cultural inexistirá".

Pode ser assim também, mas seria mais eficiente ter os espaços ocupados por diferentes atuando de maneira integrada e complementar. De preferência que sejam espaços apropriados por profissionais que fazem do ofício uma arte, com criatividade suficiente para aplicar doses de autenticidade à lógica mecânica, mas vitoriosa, das indústrias, neste caso culturais.

A comunicação de Enrique Saraiva na rede

7.7.07

EM CENA

Uns olhares vieram de fora contribuir coletivamente com o esboço de uma cena da música mineira, aquela que um dia se delineou e seguiu se constituindo aos poucos, como micro-coletivos isolados, talvez por isso enfraquecidos. Veio assim à vista essa cena, logo depois das discussões que rolaram no Stereocubo, programa de debates do projeto Stereoteca que em 2007 trouxe pra pauta o tema “Música daqui pra frente” e como referência o Espaço Cubo, um coletivo muito ativo que fez a cena rock do Mato Grosso despontar nacionalmente.

Veio junto com esse coletivo a percepção dos pilares que fazem um mercado cultural acontecer direito, com direito a tudo o que determina a cadeia produtiva da cultura. Uma lógica do mercado acrescida de toda a liberdade criativa da arte. É assim que eles fazem: entendem de processos e se permitem chegar a soluções criativas para que a produção artística siga bem aventurados rumos, Brasil afora, ou melhor dizendo, a dentro.

Como a moçada não para de fazer a coisa acontecer (é dinâmico mesmo) siga os atalhos e descubra na rede tudo o que eles fazem por aí. Aqui algumas idéias, desdobramentos da intensa temporada de debates que rolaram em terras mineiras, eles contando de lá, trocando com a gente aqui, botando pilha no processo.




A princípio pitadas de influências do centro-oeste do Brasil, de onde eles vêm, e do norte, onde eles mantêm várias articulações. É um processo diferente visualizar eles que são como a gente à frente de iniciativas muito criativas, coletivas e talvez por isso muito viáveis. Primeiro as referências, pra ajudar a juntar os fatos. Na seqüência, o encontro de muitos de Minas que estão na mesma, ali juntos em torno de um mesmo assunto – foram 6 mesas de debate que buscaram cobrir as diferentes etapas do trabalho com a arte e a cultura, à frente delas profissionais daqui e de outros cantos do país - dá uma olhada na programação.

Depois disso o link, a interseção entre fatos comuns, a mesma juventude, os mesmos “tempos de cólera”, o mesmo pique, particularmente várias oportunidades, bem como específicos buracos a serem preenchidos. Levantada toda a poeira, o arremate veio certeiro. Em terra que fez Reciclo Geral, tem Música Independente, Stereoteca e Conexão, tem produção ativa e potencial, onde tem Rádio Inconfidência e Rede Minas de Televisão com comando profissional e os músicos já se organizaram em associações, a costura tá no ponto de começar.