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23.4.09

1266


Largas ruas ligam a metrópole. Avenidas imensas se transformam em corredores de alta velocidade por onde os monumentos são rapidamente avistados aguçando histórias com o taxista.

- Em São Paulo existem muitos cemitérios no meio da cidade.

- “Moro ao lado do maior da América Latina, que fica em Vila Formosa”

O “Formosa” soa tímido, quase inaudível.
- Fica para os lados de Aricanduva, na Zona Leste. Ele completa.

Das grandes regiões de São Paulo, essa talvez seja a maior. O metrô pra lá diz ser o mais lotado. O palpite acabou sendo que o tamanho de Belo Horizonte inteira devia corresponder a toda a Zona Leste paulista.

Mais adiante, o casamento na clássica igreja puxa o papo para o refúgio histórico num lugar de representativa arquitetura. O que mais chama a atenção é o nome da Igreja, que o taxista desconhecia.

- Nossa Senhora do Brasil. Disse “toda entendida”.

Tantas idas já deu pra descobrir as belezas paulistas reveladas da Avenida Henrique Schaumann, que vira Brasil e passa pelo Ibirapuera onde são incontidas as lembranças de caminhadas no parque, visita aos museus, especialmente ao Museu Afro Brasil que guarda histórias dos nossos ancestrais.

Foi dizer isso para o taxista que ele confessou menos timidamente que sua mulher é negra, revelando-se interessado em confirmar a emoção gerada pela nossa inevitável identificação no Museu Afro Brasil com cores, cantos, gestos, roupas e hábitos vindos da África e outros já existentes no Brasil pré-colonial que nos dão a aconchegante percepção de berço – história – nação.

Uma troca simples que emocionou pela espontaneidade. Ele disse que com certeza iria a este Museu com os filhos e a mulher que ele garante, já foi ao parque. O convite talvez tenha sido estendido também aos colegas taxistas que ele encontrou ali no Aeroporto de Congonhas, onde peguei mais uma vez o vôo 1266.

Cena Carioca - obra de Heitor de Prazeres - acervo do Museu AfroBrasil

27.10.08

PERDIDA NA FLORESTA PREDIAL


A chegada é junto com o sol. Os primeiros raios são avistados brevemente, até que o metrô adentra o subsolo e por um bom tempo lá permanece. Na troca de estação o segurança de olhos arregalados e postura ereta volta para casa depois de mais uma balada.

No destino de desembarque, emergir das profundezas do subsolo é por instantes como perder a referência do chão, metros abaixo avistando metros acima. Na Avenida Paulista pouco tempo no solo se fica. Do subsolo para ir acima do décimo andar ou andar na rua sob um chão que esconde o vão por onde passam os trens.

Em São Paulo o assobio anuncia a chegada, mas o metrô só surge mesmo quando é seguido de um vento de embalar os cabelos. Se não, está passando no piso debaixo do prédio subterrâneo de trens que cortam (quase) todos os lados dessa cidade que é igual a todas, porém enoooorme perto dessa Belo Horizonte onde o metrô segue a Serra do Curral e no sentido leste-oeste desfila a cidade toda à vista.

Nas redondezas da Consolação a manhã se confunde com o fim de noite. É recorrente o desvio dos cambaleantes jovens virados, tentando voltar para casa ou concentrados no Bella Paulista, espaço de alimentação aberto 24 horas por dia. Lá os opostos se encontram: uns pernoitados e outros despertando para um dia de labuta.

A parada alternativa é na praça Benedito Calixto, onde o ritmo dos senhores montando as primeiras barracas da feira é mais condizente com o dia de estudo que se avista. São eles as mais recentes companhias do desayuno semanal empreendido em São Paulo, em meio às raridades de tempos passados expostas nessa feira tão tradicional.

Ponto de encontro como o Bella Paulista passou despercebido em terras mineiras onde o correspondente é um misto dos dois lugares. Na deliciosa praça de Santa Tereza, como diria aquele paulista mineiro agora carioca Israel do Vale, o hábito é ver o sol nascer atrás do rochedão, com tropeiro e macarrão do Bar do Bolão.

Nesta rotina São Paulo vem se desvendando por ora pouco atrativa, não somente a capital paulista, mas o padrão que se repete nas grandes cidades, com suas estruturas grandiosas e o olhar vazio dos transeuntes como que condicionados, repetindo passos, lançando mão de seu destino. Um sábado assim em Sampa se equivale a um dia útil em Belo Horizonte que vai às cegas, seguindo esse mesmo rumo, se perdendo e transformando-se em uma entristecida floresta predial.
foto emprestada da cia de foto

14.5.08

VIRADA À PAULISTA


São São Paulo pelas ruas do seu centro histórico, entre o cruzamento da Avenida Ipiranga e a Avenida São João, pelos arredores do Vale do Anhangabaú, em diversas regiões e com pólos descentralizados realizou mais uma edição do seu “carnaval temporão”.

Evento bem urbano, de alto nível, a Virada Cultural rola no ritmo e na freqüência dessa cidade ligada 24 horas por dia. Para além do trabalho diário, uma oportunidade de acesso à produção artística nacional, noite e dia com uma programação repleta de bambas, se revezando em palcos abertos para o rock, o indie, o hip hop, o samba, as meninas, a dança, o teatro, o circo...

Para tanto uma boa infra-estrutura, pontualidade entre as atrações e destaque para diversidade artística brasileira e sua interface com o mundo. O público aderiu à proposta e mais de quatro milhões de pessoas participaram do evento, número superior à população de Belo Horizonte (!).

Opções variadas. A todo minuto acontece um show, uma intervenção, um evento artístico no centro da cidade e em todos outros lugares que incrementaram sua programação para fazer acontecer a Virada.

Fernanda Takai e Gal Costa entraram no roteiro de shows. Elas foram responsáveis por muitos cantos coletivos, mãos erguidas e a nostalgia de um “barquinho que vai”, em incrível versão em japonês pela Takai, reforçada por um “Chega de saudade” na leveza serena de Gal. Esses shows simbolizaram a fertilidade e permanência da música brasileira mundialmente consolidada com a bossa nova e a tropicália.

Marina de la Riva, hermosa chica, esbanjou charme com um repertório de hinos caribenhos e clássicos brasileiros. Ela mesma elo entre Brasil e Cuba, faz parte do time mais forte das cantoras da nova geração. Desse ritmo pra cima, no pique coletivo de criação, Orquestra Imperial, divertindo (se)! Bem arranjados, vários músicos e artistas cariocas se juntaram e criaram um espetáculo musical que foi uma alegria só.

Nesta concreta cidade, concentrado de brasilidade, também teve Tom Zé, na modernista Casa das Rosas, onde ele tocou as melhores, soltou o verbo e o ritmo. Confessou cantando que “Augusta, Angélica e Consolação” é uma de suas grandes criações. Ô se é! Como é grande Arnaldo Antunes e a canção, o "corpo a corpo com a linguagem", puro sentimento e expressão. Ele reinou no palco rock diante de uma multidão de perder de vista. Vencidas as 24 horas, a carruagem de volta pra casa e pra rotina com certeza estava um tanto mais inspirada.

Breve imersão na diversidade paulistana, esse evento foi praticamente um “boas-vindas!” à terra da garoa. Bem na Virada, palavra que sempre vem surgindo repentina, foi dada a largada à temporada de estudos na Universidade de São Paulo. Como serão muitas as idas e vindas, por aqui Virada à Paulista virou um dos “marcos” do blog. Umas histórias virão sobre a terra de lá, em homenagem à “neomineira”, contadora de causos Jujulita, parceira de caminhos afins que tempera um Tutu Mineiro bom de ler e de dialogar. Sobre os estudos, confira alguns registros do processo no marco “Reflexão prática”.

foto alimdul