26.11.08

'ÁFRICA GERAIS'


Nossa Senhora do Rosário era santa branca, vinda de Portugal. No Brasil ela surgiu como lenda, no meio das águas, como uma iluminação. Foram muitas as tentativas para tirá-la da água e enaltece-la em um altar. Era tempo da escravidão, quando os novos moradores do Brasil-colônia, cada um oriundo de um canto estabeleceram suas relações. Uns vindo para dominar, outros dominados buscando preservar o que traziam por dentro. Cada um com sua crença e, naquele momento, uma santa para trazer para perto.

De todas as tentativas, a atendida foi a prece com cantos e tambores puxada pelos negros, com sua reza própria, festiva e rueira. Ela veio e foi assim que Nossa Senhora do Rosário se tornou sua padroeira, a santa branca, protetora dos escravos, um elo simbólico do sincretismo no Brasil, onde os negros encontraram na Igreja Católica uma forma correspondente de celebrar a sua fé, da sua forma, assim respeitada pela santa católica. O Reinado de Nossa Senhora do Rosário então se formou entre descendentes dos escravos no Brasil, especialmente em Minas Gerais, interior de Goiás e Espírito Santo, sendo popularmente conhecido como Congado.

Este mito fundador do Congado é o ponto de partida de um processo artístico realizado entre integrantes de cinco Irmandades de Congado das cidades de Contagem e Oliveira, interior de Minas. A proposta desenvolvida pelo diretor e autor de teatro João das Neves e pela cantora Titane, resultou no projeto-espetáculo “A Santinha e os Congadeiros”, que enfoca o viés artístico desta manifestação religiosa e cultural e paralelamente valoriza e fortalece essa tradição secular.

“O congado é uma manifestação da religiosidade que se faz ver a partir de uma manifestação artística com canções, tambores e bandeiras conduzindo sua religiosidade”. A visão de João das Neves é compartilhada por Titane e por diversos outros artistas que referenciam a cultura afro-mineira em suas criações, incorporando instrumentos, cantos e outros elementos do Congado. Essa apropriação, fruto do contato de diferentes culturas e formas de expressão, é cada vez mais freqüente no mundo contemporâneo onde os limites da diversidade estão cada vez mais próximos.

João das Neves e Titane tem um histórico de interações com a cultura popular e especialmente com o Congado, “apropriado” nos discos Inseto Raro e Sá Rainha e outros trabalhos. Desta vez, com o projeto “A Santinha e os Congadeiros” os parceiros estabeleceram um processo inusitado: integrantes das guardas encenam a si próprios. Uma apropriação ao inverso ou no mínimo uma ação diferenciada, em que o processo artístico desencadeia também um elo dos jovens integrantes com a tradição, e uma valorização pela sociedade desta herança afro-brasileira.

Da mesma forma que Nossa Senhora aceitou “os negros como eles são, cantando, dançando, cultuando do seu jeito”, como afirmou Pedrina Santos, Capitã da Guarda de Moçambique Nossa Senhora das Mercês, de Oliveira, os artistas envolvidos na formação do elenco para a montagem do espetáculo “A Santinha e os Congadeiros” se fundamentaram nas particularidades dos integrantes das guardas. “Nosso trabalho não é para mudar o jeito de cantar ou para mudar os significados, mas para mostrar como é”, registrou Titane, que coordenou o projeto e a preparação musical do elenco.

A criação conta com elementos identitários dos participantes. A tradição se expressa pela arte, se comunica de outra forma com a mediação de João das Neves: “O caminho do artista é geralmente conhecer e beber de uma cultura para criar o seu trabalho. Neste caso, os artistas vão até a cultura e ela própria cria o seu trabalho artístico”.

A interação entre artistas e integrantes da guarda gerou o espetáculo “A Santinha e os Congadeiros”, apresentado nos dias 15 e 29 de novembro, em Contagem e Sete Lagoas, interior de Minas Gerais. O processo de montagem da peça desencadeou um contato com arte por meio da tradição que despertou em integrantes da guarda um novo interesse e uma conseqüente valorização desta tradição.

“A cultura negra é essencialmente festiva e rueira. A festa do Congado antes era perseguida, hoje é assediada. Este é um novo tempo, que exige outro comportamento dos capitães das guardas seculares de congado”. João das Neves aponta para o que Jorge Antônio dos Santos, da diretoria de eventos da Comunidade dos Arturos confirma: “Esse projeto é uma forma diferente de mostrar essa história. É um meio de manter a juventude, despertar e valorizar os jovens. Eles se sentem valorizados e valorizam a tradição. É um outro meio de preservar, manter e dar seqüência à nossa tradição”.

fotos joão castilho . design gráfico denis leroy

Para quem acompanhou: o post que estava em construção virou colaboração para a revista Continuum, do Itaú Cultural. Visita lá. Aproveite e conheça mais sobre a revista aqui mesmo.

3 comentários:

Anônimo disse...

pq li aqui
lembrei que também perrenguei por sampa
busquei meus anotados
coloquei no bloguete
menos moribundo e mais chicléte!

bjoquete

www.adoreiobloguete.blogspot.com

Cristiana Brandão disse...

Viva Nossa Senhora do Rosário!
Viva!
Viva o Divino Espírito Santo!
Viva!

Que saudade, Ludi!

bjs,

Cris

.ludmila ribeiro. disse...

viva viva!

cris cris cris, que bom!

tiengo mucho que hablar contigo chica!

vou te escrever djá ! precisamos encontrar. nós e a minhoca chiclete flávia mágica gaga.

novidades e um 2009 tão pertim!

besos