O verde está saindo da praça... do mercado e da cidade. Já não há mais beija-flor e logo serão poucos os pássaros em geral. A verdinha nota de um real virou raridade, assim serão também com as árvores?
O homem abriu mão de ter os pés no chão, vive no deslumbre, nas alturas dos arranha-céus. A cabeça nas nuvens e as árvores sem chão. Os pássaros sem pouso se vão, o ar não se recicla, o sufoco se amplia. Os valores agora são outros.
“Alvorada com passarada” “passou o tempo e o vento levou”. A moeda veio para substituir o “papel” do beija-flor, na mesma época em que o belo horizonte aos poucos se perde em meio à selva de pedras. Uma troca como tantas outras históricas. Um desejo sincero de que esse novo trocado não represente também a perda de mais verde na paisagem.
1.6.08
VER TE
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
Mário Quintana
14.5.08
VIRADA À PAULISTA

São São Paulo pelas ruas do seu centro histórico, entre o cruzamento da Avenida Ipiranga e a Avenida São João, pelos arredores do Vale do Anhangabaú, em diversas regiões e com pólos descentralizados realizou mais uma edição do seu “carnaval temporão”.
Evento bem urbano, de alto nível, a Virada Cultural rola no ritmo e na freqüência dessa cidade ligada 24 horas por dia. Para além do trabalho diário, uma oportunidade de acesso à produção artística nacional, noite e dia com uma programação repleta de bambas, se revezando em palcos abertos para o rock, o indie, o hip hop, o samba, as meninas, a dança, o teatro, o circo...
Para tanto uma boa infra-estrutura, pontualidade entre as atrações e destaque para diversidade artística brasileira e sua interface com o mundo. O público aderiu à proposta e mais de quatro milhões de pessoas participaram do evento, número superior à população de Belo Horizonte (!).
Opções variadas. A todo minuto acontece um show, uma intervenção, um evento artístico no centro da cidade e em todos outros lugares que incrementaram sua programação para fazer acontecer a Virada.
Fernanda Takai e Gal Costa entraram no roteiro de shows. Elas foram responsáveis por muitos cantos coletivos, mãos erguidas e a nostalgia de um “barquinho que vai”, em incrível versão em japonês pela Takai, reforçada por um “Chega de saudade” na leveza serena de Gal. Esses shows simbolizaram a fertilidade e permanência da música brasileira mundialmente consolidada com a bossa nova e a tropicália.
Marina de la Riva, hermosa chica, esbanjou charme com um repertório de hinos caribenhos e clássicos brasileiros. Ela mesma elo entre Brasil e Cuba, faz parte do time mais forte das cantoras da nova geração. Desse ritmo pra cima, no pique coletivo de criação, Orquestra Imperial, divertindo (se)! Bem arranjados, vários músicos e artistas cariocas se juntaram e criaram um espetáculo musical que foi uma alegria só.
Nesta concreta cidade, concentrado de brasilidade, também teve Tom Zé, na modernista Casa das Rosas, onde ele tocou as melhores, soltou o verbo e o ritmo. Confessou cantando que “Augusta, Angélica e Consolação” é uma de suas grandes criações. Ô se é! Como é grande Arnaldo Antunes e a canção, o "corpo a corpo com a linguagem", puro sentimento e expressão. Ele reinou no palco rock diante de uma multidão de perder de vista. Vencidas as 24 horas, a carruagem de volta pra casa e pra rotina com certeza estava um tanto mais inspirada.
Breve imersão na diversidade paulistana, esse evento foi praticamente um “boas-vindas!” à terra da garoa. Bem na Virada, palavra que sempre vem surgindo repentina, foi dada a largada à temporada de estudos na Universidade de São Paulo. Como serão muitas as idas e vindas, por aqui Virada à Paulista virou um dos “marcos” do blog. Umas histórias virão sobre a terra de lá, em homenagem à “neomineira”, contadora de causos Jujulita, parceira de caminhos afins que tempera um Tutu Mineiro bom de ler e de dialogar. Sobre os estudos, confira alguns registros do processo no marco “Reflexão prática”.
foto alimdul
25.4.08
ENTRE E FIQUE A VONTADE

De longe pode parecer uma miragem, ou mesmo uma ilha de memória em pleno centro urbano da capital. A imaginação infantil não duvida que naquele castelo exista uma princesa aprisionada, ou mesmo uma bruxa má atrás da porta principal.
A maioria da população que transita por ali sem parar, indo e vindo na labuta do dia-a-dia geralmente desconhece o que hoje habita este antigo Prédio da Estação Central de Belo Horizonte.
Os pré-conceitos podem querer permanecer diante da “previsibilidade de um museu”, mas o convite é insistente: entre e fique a vontade, o Museu de Artes e Ofícios é um concentrado de realidade histórica e cultural.
Reconhecer a arte que existe no ofício artesanal dos trabalhadores, protagonistas de um Brasil pré-industrial é compartilhar a riqueza de uma história que nem sempre se conta nos livros oficiais. O Museu de Artes e Ofícios - MAO é esse lugar de memória, de valorização e divulgação das profissões e principalmente do trabalhador brasileiro.
Inaugurado em dezembro de 2005 o MAO apresenta ao público uma coleção de mais de 2.200 peças dos séculos XVIII ao XX divididas em ofícios diversos, como transporte, comércio, mineração, conservação e transformação dos alimentos, ambulantes, dentre outros.
Sua implantação nos prédios históricos da Estação Central, que foram restaurados para abrigar o Museu, trouxe um ganho artístico-cultural para Minas Gerais e também representou um processo de valorização e requalificação do centro de Belo Horizonte.
Ali, bem próximo ao trabalhador, o MAO mantém e revela a riqueza da produção popular, os fazeres, os ofícios e as artes que deram origem a algumas das profissões contemporâneas.

Não por acaso, pessoas de diversas classes sociais e faixas etárias expressam sua emoção e satisfação por estarem ali, se reencontrando com o seu passado, com um cotidiano remoto que permanece vivo. O diferencial está justamente nesse encantamento que ressurge com o simples e corriqueiro, destacado em uma coleção que valoriza a arte diária de “construção do mundo dos homens”.
Desafios não faltam para manter essa instituição plenamente dinâmica e atuante. Ações integradas nas áreas museológicas, educativas e culturais são desenvolvidas diariamente e o público pode apreciar a exposição permanente com os ofícios brasileiros e também participar dos eventos culturais mensais “Ofício da Música” e “Ofício da Palavra”, além de exposições temporárias, oficinas e outras atividades.
Para o mês de maio, programação especial para a 6ª Semana de Museus, lançamento do curso de “Qualificação de jovens em conservação” e nova e renomada exposição temporária. Acompanhe aqui. Para todo este ano, o prazeroso desafio de desenvolver uma gestão cultural que venha de encontro às demandas e potenciais desta importante instituição museal, tendo na criatividade e flexibilidade da arte, a fonte de inspiração. O trabalho está só começando.

fotos Miguel Aun
12.4.08
PASSA TEMPO

Ponteiros parados marcavam um tempo passado. Os relógios de pêndulo, espalhados naquela casa antiga (velha só em idade), cada um em um horário, traziam lembranças de outros momentos. Traziam impressões que rejuvenesceram o tio e as tias-avós de ‘Beatrizinha’, e de repente aquela era uma Salvador moderna, ao mesmo tempo (sobre)viva na contemporaneidade, isolada como uma ilha, perdida em um Rio Vermelho, na praia de Iemanjá.
Na presença de tantos horários que já se foram, e que todo dia se repetiam voltando sempre numa daquelas horas em que parou, deu pra desnortear os ponteiros, perder os eixos e me deixar levar pelas praias, bairros, ladeiras e ‘buracos’ daquela festiva capital em pleno verão. À procura de uma identidade, do tempo típico do soteropolitano, encontrei um pouco de tudo nas pessoas que traziam dentro de si, no seu dia-a-dia, elementos da cidade além do carnaval. Pessoas em vários tempos simultâneos, transitando entre o turismo e a rotina de cidade grande. Pessoas que, parecia, não davam muita ‘corda’ para seus relógios.
Num outro instante vi, em outros lugares, relógios antigos que nem oscilavam entre o baiano ritmo “lento, devagar ou dorival caymmi”, também estavam parados. Pendurados como um troféu, outrora disputado por alguém que correu atrás do tempo e depois deixou ele vencer só. O tempo ficou e a corrida passou a ser em busca daquela história que fez então o tempo parar, estático, registrando aquele instante que nesta imaginação (por que não?) era especial. Era ontem, amanhã, agora.
Embalada pelas voltas do ônibus, olhando a janela à procura desta Salvador “fora de época”, buscando respostas para toda aquela energia fundida em raças, ritmos e crenças, que nelas um tanto de mim encontrava, fui confirmar tal especialidade de tempos parados. Foi num momento em que uma senhora, mais forte que a sua idade e condição social, me perguntou as horas, indignada, pois o seu ponteiro não girava, mas apontava as mesmas seis horas e cinco minutos do meu relógio. Foi então que o tempo parou e ela se foi, seguiu sua rotina a caminho de casa, alguns pontos antes do Pelourinho, me deixando à deriva, em Salvador.
* Repeteco do texto surgido no verão de 2006. Homenagem aos eternos retornos. À sempre especial cidade de São Salvador.
foto Jonas Grebler
7.4.08
REDEMUIM 2008

Rede movida pela energia da juventude e da transformação, o projeto RedeMUIM de Arte e Cultura chega à sua terceira edição, firme no seu propósito de fortalecer o cenário artístico cultural do Aglomerado da Serra e da Grande BH. Com o histórico de duas bem sucedidas edições voltadas para a formação de produtores culturais e agentes de comunicação, o RedeMUIM agora volta suas ações para os artistas locais, que ganham espaço para formação e experimentação artística.
O Projeto RedeMUIM de Arte e Cultura é uma realização do coletivo C.R.I.ARTE- Comunidade Reivindicando e Interagindo com Arte, que há três anos vem realizando atividades de formação e produção para artistas e produtores locais. À frente das coordenações geral, de produção e de comunicação, os jovens do C.R.I.ARTE vêm atingindo suas metas e cada vez mais profissionalizando suas ações culturais, sem perder de vista suas características próprias e peculiares.
Atento à realidade do Aglomerado da Serra, uma das comunidades de Belo Horizonte que mais têm grupos culturais em atividade, o C.R.I.ARTE desenvolveu o projeto RedeMUIM que hoje tem sua marca associada aos eventos “Aglomere-se”, ao jornal "Entre Becos e Vielas" e ao site, que seguem seu percurso. Os processos vivenciados pelo grupo estão sendo registrados no blog.
Com o olhar voltado para os artistas locais, o RedeMUIM promove agora novas realizações. Em 2008 serão realizadas oficinas voltadas para formação e experimentação artística. Aos artistas auto-produtores, que já desenvolvem seu trabalho com a criatividade que lhes é própria, serão acrescentados novos conhecimentos, que virão potencializar e profissionalizar esse trabalho artístico. Acesso à informação para estimular novas criações. Continuidade nas ações para alcançar novos horizontes.
É assim que o RedeMUIM segue multiplicando suas ondas. Para começar bem o projeto e divulgar as inscrições para as oficinas, vai acontecer de 7 a 11 de abril o evento “Aglomere-se – Arte Computacional”. Será uma semana de encontros com artistas e programadores apresentando as diversas possibilidades e contribuições que o computador traz para a criação artística.
Aberto a todos os interessados, o “Aglomere-se – Arte Computacional” acontece das 19h às 21h, no Centro Cultural Vila Marçola (R. Mangabeira da Serra, 320 - Serra). Na ocasião, artistas interessados em participar das oficinas de formação e experimentação podem fazer sua inscrição e garantir a sua participação nos módulos de desenvolvimento e ação.
Confira a programação do “Aglomere-se – Arte Computacional”:
07/04 – DJ e VJ: manipulando som e vídeo em tempo real
c/ DJ Spider e VJ Tatu Guerra
08/04 – Arte Computacional Interativa
c/ Designer visual Marília Bergamo
09/04 – Computação Musical: da criação ao palco
c/ Músico e DJ Produtor Lucas Miranda
10/04 – Programação sonora visual
c/ DJ e Designer André Wakko
11/04 – Software Livre: ferramentas pra uma cabeça aberta
c/ Músico Manuel Chile e o Programador Clóvis Nosklo
Pode chegar que a entrada é franca.
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