8.9.08

OLHO MÁGICO


Descobrir os sentidos da vida no acaso. Transmitir através de janelas digitais o mundo em forma de arte. Inspiração? “Vem com o outro, é tudo aquilo que não está em mim”. As ferramentas são a fotografia, vídeo, cinema, todos reunidos na instância maior das artes plásticas. Uma multiplicidade de formatos. Assim é o universo do artista visual Cao Guimarães.

O laboratório de azulejo branco na casa do avô, em Belo Horizonte é a lembrança viva do fascínio despertado pela revelação das fotografias e do desejo insuperável de ver as imagens proibidas daquele arquivo médico. Aprendizado e suspense que inspiraram seus primeiros trabalhos, como a primeira exposição, realizada no Itaú Cultural em 1990: “As imagens eram muito impregnadas, mórbidas. Uma época meio dark, eu era jovem, e tinha uma coisa de esconder as imagens, de sobrepor camadas e camadas de imagem na fotografia, para que a realidade desaparecesse em partes”.

Em 1996, Cao Guimarães se mudou para Londres com a mulher – e também artista plástica – Rivane Neuenchwander. Lá, teve acesso a super 8, câmera digital prática e acessível, que se tornou seu instrumento de trabalho. “Em Londres, tinha o filme e a revelação que não existem no Brasil. Havia diferentes tipos de câmeras e até clubes de “super oististas”, onde era possível montar o filme. Eu comprei a câmera de vídeo e filmava o cotidiano daquela cidade, poesia... Você está distante das pessoas que gosta e passa a ter uma visão de fora do seu país, um olhar melancólico pela cidade”. Esse sentimento deu origem a dois trabalhos, “The Eyeland” (Terra do Olho), que remete à ilha da Grã-Bretanha, mas é um trocadilho, uma brincadeira com a palavra ilha, e “Between”, um inventário de pequenas mortes.

Vídeos e instalações trabalhadas no formato digital caracterizam o trabalho de Cao Guimarães. Com esse recurso, ele explora o mundo das mais variadas formas, transformando simples coisas da vida em arte e reflexão. Trabalhos como “Word World“ e “Hypnosis”, têm como protagonistas o trabalho das formigas em busca de doce, o primeiro, e as danças das luzes de um parque de diversões, o segundo. Situações que muitas vezes passariam despercebidas transformam-se em inspiração aos olhos do artista.


No final de 1998, Cao retornou ao Brasil. Um reencontro com a pátria e com novas inspirações. “Quando eu voltei pro Brasil tive a deliciosa sensação de redescobrir o País. Ou seja, o fim de toda aquela sensação de exílio, melancolia da distância”. Dominando as técnicas do super-oito, e da edição não linear, ele partiu para o interior do Brasil à procura de personagens que trabalhavam com profissões extintas, como ascensorista, tocador de sino e parteira.

Ao lado dos parceiros Lucas Bambozzi e Beto Magalhães, ele chegou ao “Fim do Sem Fim”, longa metragem que retrata, entre outras coisas, o povo brasileiro. As filmagens duraram um ano e dois meses, com uma equipe de apenas cinco pessoas. Na verdade, foram muitas mais, até encontrar pessoas que compartilhassem de uma mesma harmonia estética para completar o trabalho. Cao lembra, O Grivo, grupo de música experimental responsável pela trilha sonora de todos os seus filmes: “Eu sou o olho e eles são o ouvido. Isso é o cinema, a imagem e o som”.

Mas nem tudo é imagem em movimento. Em 2001, o artista lançou o livro Histórias do Não Ver, relatos de vários dias em que simulou um seqüestro e fotografou com os olhos vendados. Esse trabalho, apresentado também no formato de instalação, ganhou o Prêmio Aquisição no XVII panorama de arte brasileiro, no MAM (Museu de arte moderna) em São Paulo.

São muitas as referências para conhecer Cao Guimarães e muitas indicações de quem entende do assunto. Os vídeos narrativos “The Eyeland” e “Between” receberam o Prêmio Especial na IV Mostra do Museu de Imagem e Som, realizada em São Paulo em 2000. A instalação “O Sopro” foi vencedora do prêmio” É Cinema”, no segundo Festival Brasil Digital. “O Fim do Sem Fim” ganhou o prêmio” Renovação de Linguagem” em Marseille, na França e o” É Tudo Verdade, no VI Festival Internacional de Documentário. Enfim, um reconhecimento que levou seu trabalho aos quatro cantos do mundo.

Artista em constante renovação, Cao Guimarães não para. Em 2002 lançou o vídeo “Inventário de Raivinhas” e outros trabalhos que você acessa no site. Em 2004 o documentário ”A Alma do Osso”, vencedor do É Tudo Verdade, inaugurou sua trilogia sobre a solidão. “Andarilho” é o segundo da série, em cartaz no Usina Unibanco de Cinema, premiado como Melhor Direção, no Festival do Rio, em 2007; Melhor Filme no Forum.doc, de BH e selecionado para o Festival de Veneza, em 2008. Encerra a trilogia um filme sobre as multidões, que está em fase de produção. Tem que ver e por um olho mágico, descobrir a surpresa reservada para o outro lado.


O texto é de 2002 e o convite é para agora. Duas oportunidades para conhecer parte da obra de Cao Guimarães: Andarilho, em cartaz no Usina Unibanco de Cinema e exposição de artes plásticas no Museu de Arte da Pampulha. ‘Olho Mágico’ foi elaborado para a quinta edição do SOM – Informativo da Fundação de Educação Artística, em 2002. A estréia primeira no jornalismo fica aqui registrada (e brevemente atualizada) para não perder o fio da meada.

imagem 'andarilho' de cao guimarães

31.8.08

FREAK FAKE


Totalmente fake mas deliciosamente divertido. Freak Show de Calouros estreou quinta-feira passada, dia 28 e vai rolar toda última quinta-feira do mês no Tuba in Cineclube, festinha semanal que acontece no Cineclube Savassi.

Trata-se de um Show de Calouros com tudo o que se tem direito: etapas eliminatórias, apresentadores num figurino daqueles, jurados, vinhetinhas dançantes, prêmios e... corajosos calouros que encaram a missão de interpretar canções punk rock executadas pela banda base formada pelo P.R.O.A.

Freak Show é comandado pelas “Organizações Pinochet”, a mais nova invenção de uma dupla mineiríssima que, no melhor estilo come-queto, cria um verdadeiro rebuliço nas (longas) noites undergrounds belo-horizontinas. Baiano e Trotta como são conhecidos os músicos do Proa, seguem sob o velho lema do “faça você mesmo” e junto com Danielzim (que completa a banda Proa), Jack S1ngle e Cat criam boas novas como essa.

Com eles é assim, você quase não vê um flyer circular ou uma matéria no jornal, no rádio ou na tv. Mas as festas estão sempre agitadas, com punk, rock, olds e afins na pista e o público ocupando até o topo os principais inferninhos da cidade.

Obra do Tuba-in inclusive inaugurar o mais novo espaço alternativo de BH: o Cineclube Savassi que, com uma programação audiovisual especial pra telona e com um pouco mais de ar (ufa!), ficará top de linha.

No Freak Show todo mundo pode se inscrever, não há pré-requisito, mas para subir ao palco do Show de Calouros é preciso ser aceito pelos comandantes das ‘Organizações Pinochet’. Dos quatro candidatos por noite saí um vencedor que, ganhando a final será premiado com um disco demo, produzido no Estúdio Indiada Magneto e uma estadia no Othon Palace de Araxá, com direito a acompanhante.

Curtiu? Então inscreva-se pelo youtubain@gmail.com e prepare-se para revelar o seu talento e encarar a platéia e os jurados do mais novo show de calouros de BH. Divirto até o fim.

divulgação + foto PROA por paula fortuna

13.8.08

COM ENTENDIMENTO


Uma ação para os jovens. Foi essa demanda sugerida pela comunidade que gerou a iniciativa do Instituto Kairós de propiciar uma experiência com comunicação comunitária para os jovens moradores de Macacos, distrito de Nova Lima.

Para o grupo em formação, a necessidade de apresentar caminhos e provocar nos jovens escolhas sobre qual peça de comunicação será interessante desenvolver num projeto de aprendizado e produção prática.

Da minha parte, isso representou a estruturação de um módulo de sensibilização sobre o universo da comunicação para jovens de 15 a 25 anos, para a partir daí eles darem prosseguimento ao trabalho. A proposta da oficina realizada no dia 31 de julho foi apresentar a comunicação nas esferas pessoal e social, revelando alguns produtos, técnicas e responsabilidades próprias do comunicador.

Tudo bem que a “professora” também parecia aluna e realmente tinha a mesma idade de alguns dos presentes no momento. Mas como o que importava lá era a experiência a ser compartilhada, essa aproximação etária acabou contribuindo com o objetivo principal da oficina: sensibilizar.

O ponto de partida foi a abordagem da comunicação na esfera pessoal como uma ação que envolve diretamente as pessoas. A partir da percepção de que todo mundo se interage o tempo todo e que a comunicação é presença marcante na vida em sociedade foi possível apresentar os processos básicos de comunicação, experienciar formas de expressão, chegando à reflexão sobre a influência e o papel da comunicação nas relações sociais, políticas, econômicas e culturais.

Os conceitos apresentados ganharam uma dimensão real com a apresentação de alguns produtos de comunicação analisados conjuntamente, tanto do ponto de vista editorial, estético, como do alcance em diversos públicos, dentre outros aspectos.

A oficina de sensibilização em comunicação foi um novo desdobramento do trabalho que venho desenvolvendo com jovens interessados em se expressar e principalmente em compartilhar informações de interesse coletivo a partir da perspectiva cultural.

Essa experiência serviu para adentrar novos caminhos, mas especialmente para reforçar uma das características da comunicação que considero mais importante: a busca pelo diálogo e o entendimento entre as pessoas.

Essa característica foi um dos pontos centrais da oficina, desafiador tanto pela missão de repassar esse conceito para jovens (em toda a abstração e complexidade que ele sugere), quanto pelo próprio desafio de estruturar uma oficina que promovesse essa percepção.

O olhar atento dos jovens e a interação cada vez maior sugeriram uma conquista desses objetivos que foi possível a partir de recursos como dinâmica de grupos, exposição de materiais, leitura de textos e apostila elaborada especificamente para esse momento.

A oficina de sensibilização foi uma contribuição para a ação desenvolvida pelo Instituto Kairós (lugar que merece ser visitado) que está preparando o grupo Comunica Jovem para desenvolver ações de comunicação comunitária. Alguns conceitos foram lançados para esses jovens em início de “carreira”, especialmente a motivação para que eles busquem transformar suas idéias em realizações, numa busca contínua que naturalmente se repete, não como um círculo que sempre volta ao mesmo lugar, mas como uma espiral em que a próxima volta é sempre em um estágio mais avançado.

Pelo processo vivido e pelos resultados alcançados registro um agradecimento a minha grande irmã da vida inteira Ana Cacá (!) que a partir dos seus conhecimentos de dinâmica e psicologia social me orientou e contribuiu para ricos momentos na oficina. Obrigada também à Associação Imagem Comunitária-AIC pela cessão do programa Rede Jovem de Cidadania. À Rosana Bianchini, coordenadora do Instituto Kairós e especialmente à Flávia Britto (amiguda!) à frente da comunicação e deste trabalho com os jovens, obrigada pelo convite e parabéns pela promissora iniciativa.

7.8.08

"o simples repousa em profundidade"


Na manhã de quarta-feira o acaso me trouxe de presente o disco “Moira”, estréia da cantora Maísa Moura que lançaria seu primeiro CD na noite deste mesmo dia. Oportunidade para uma audição prévia que é sempre interessante, assim como assistir a um show estando aberta à novidade é uma experiência única.

Mas o tempo não dava tempo e o disco ali ao alcance dos olhos, investigado sem poder soar gerou uma expectativa pela simplicidade aparente, seguida de uma emoção pelos versos e pelo conceito do disco que se definia nos bordados do encarte. A primeira audição logo confirmou a intensidade deste trabalho permeado de critério, densidade e esmero.

O repertório do disco de estréia de Maísa Moura é elaborado, com Zé Miguel Wisnik (!), Chico Saraiva, Renato Negrão, Makely Ka, Eleomar e Tom Zé. São canções que sugerem caminhos inesperados e Maísa chega a todos e vai além com técnica apurada e larga extensão vocal. Os arranjos são de Avelar Jr., Guilherme Castro e Vladimir Cerqueira para uma formação com baixo, violões, violoncelo, sanfona e percussão com Fred Malverde, Sarah Assis e Léo Dias.


”Moira” convida o ouvinte a um universo de profundidade e sensibilidade.

Ousada, mas sem pretensão e por isso precisa e certeira Maísa Moura desponta na cena mineira com autenticidade e um potencial de grandes realizações. Suas pesquisas resultaram em um disco requintado, que nos transporta para um ambiente camerístico - ou ‘Roseano’ como pontuou Titane – em todos os casos bem expressivo.

É um disco para ser apreciado com o mesmo cuidado e dedicação com que foi feito. Trilha sonora para todos os dias descobrir um novo toque, um outro timbre ou um verso arrebatador. Vai permanecer por tempos bons na minha lista.

Para quem quiser ouvir, as faixas estão disponíveis para download junto com o encarte e as letras. Por aqui fico deixando um trecho da letra da canção “Casa de Areia” feita por Makely especialmente para sua parceira.



“sol aceso em mil faróis
na cambraia de lençóis
nem valentes nem heróis
somos dois somente mais a sós

ouço o vento e soa sua voz
muda lento em volta tudo atroz
passa o tempo e não passamos nós
noite adentro escorre pela foz”


arte gráfica de Gisele Moura + foto divulgação

6.8.08

G. GUEDES


Dois tempos, duas histórias que se reencontram na música. Para esse duo, um mesmo nome: G. Guedes, que vale tanto para Godofredo Guedes quanto para seu neto Gabriel Guedes. A distância que separa os dois (Godofredo faleceu em 1986, quando Gabriel tinha 8 anos), não impede a estréia conjunta em um trabalho recheado de chorinhos, de lembranças e de ineditismo.

“Choros de Godofredo”, CD que Gabriel Guedes lançou em 2005, traz chorinhos inéditos do seu avô paterno. O caderno de partituras manuscritas, com composições do avô carpinteiro, construtor de instrumentos, músico, poeta, pintor e artista foi um verdadeiro achado na sua vida. Uma herança de valor inestimável, com a qual Gabriel vem realizar o sonho de Godofredo, registrando essas composições em grande estilo, resgatando uma história muito musical.

Neste disco, Gabriel Guedes assume o bandolim e convida os artistas de sua referência para partilhar com ele esse momento de resgate e de estréia. Um encontro com os amigos e a família no melhor estilo das rodas de choro. Participam do disco seu pai Beto Guedes, que canta com Tavinho Moura a canção "Cais da Esperança", Milton Nascimento marcando presença em "Tropeiro", Wagner Tiso ao piano em "Tardes em Fortaleza" e Yamandú Costa com seu virtuoso violão em “Eu e minha clarineta”, dentre outros artistas.

O repertório, selecionado a partir do gosto pessoal de Gabriel e das peculiaridades de cada música, inclui ainda outras pérolas de Godofredo, como o sofisticado “Chorando em sol menor” e o melódico “Chorando com estilo”. O disco se completa com mais quatro músicas inéditas: “Tocando no Parque”; “O Último choro”; “Caindo do Céu” e “Tristeza de baiano”.

No dia 15 de agosto Godofredo Guedes, o patriarca de uma família de grandes artistas adoradores também da aviação, completaria 100 anos de vida. Gabriel Guedes, após realizar o sonho do avô lançando sua obra, preparou uma série de homenagens a Godofredo, a começar pelo show de hoje a noite, no Grande Teatro do Palácio das Artes com participação de Beto Guedes, Lô Borges, Toninho Horta, Marina Machado, dentre outros. A comemoração desta data querida se estende também para Montes Claros, cidade onde Godofredo viveu, com show especial no próprio dia 15.

Gabriel à frente deste trabalho encontrou a melhor forma de expressar sua admiração pelo avô: “Não se fala com palavras, o que se pode dizer com a música”. Música que fica a perpetuar a inspiração e sensibilidade de um dos maiores compositores da música popular brasileira.


Resgate do texto feito em 2005 para o caro querido amigo Xexéu para divulgar sua valiosa iniciativa. Desejo de boa sorte e um 'Até Montes Claros!’, já que a presença de hoje será em outro show: o lançamento de Moira, estréia da cantora Maísa Moura, no projeto Stereoteca. Hasta luego!